Porto Alegre, 24 de Setembro de 2017

SÃO BASÍLIO MAGNO, O DEFENSOR DOS POBRES: A HOMILIA SOBRE LUCA 12.


“A fome dos outros condena a abundância de quem não tem fome!”
(Dom Helder Câmara)


INTRODUÇÃO

    O grande padre da Igreja, Basílio, à luz da Palavra de Deus, buscou a justiça divina defendendo a causa dos pobres de sua cidade, Cesaréia, na Capadócia. Este bispo fazia muitas homilias em defesa dos pobres. “O pobre é preferido não por ser necessariamente moral ou religiosamente melhor que outros, mas porque Deus é Deus, Aquele para quem ‘os últimos são os primeiros’” .
Jesus inicia a sua pregação citando o livro do profeta Isaías, onde diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Este texto de Isaías consiste no fio condutor da pregação de Basílio. É a pregação pela libertação dos mais pobres que são castigados pela opressão dos mais ricos e poderosos. A homilia sobre Lucas 12 é um verdadeiro tratado sobre a pobreza em confronto com a riqueza. Esta homilia é o objeto de nossa reflexão.
Começaremos por apresentar a vida e obras de Basílio, o contexto em que se desenvolve a dita homilia e, por fim, os aspectos filosóficos, cristológicos, antropológicos e escatológicos. Tudo isso com o fim de, através da homilia, termos um panorama do conteúdo das homilias e pregações de Basílio Magno.

1. VIDA E OBRAS DE SÃO BASÍLIO

    Basílio nasceu em Cesaréia por volta do ano 329. Juntamente com seu irmão Gregório de Nissa e seu amigo Gregório Nazianzeno constituem capital importância para a teologia e para a Igreja e, além disso, os três “grandes capadócios” caracterizam-se por terem deixado “suas carreiras seculares, não com a intenção de trocá-las por uma carreira eclesiástica, mas sim para seguirem radicalmente a Cristo, dedicando-se a uma vida ascética na solidão” .
Basílio foi bispo de Cesaréia. Nesta cidade havia muitos pobres e, além disso, Cesaréia era constantemente atingida por enchentes e tempestades, o que agravava ainda mais a situação. Assim, o bispo de Cesaréia tinha um grande zelo apostólico para com os pobres e denunciava os ricos. Destaca-se também, o grande amor à solidão. Por isso, Basílio é considerado o pai do monaquismo. Em virtude disso, ele escreveu as Regras. Contudo, colocamos em relevo as principais obras de Basílio: A homilia sobre Lucas 12; Homilias sobre a origem do homem e o Tratado sobre o Espírito Santo. Basílio veio a óbito em 379. “Dele podemos afirmar que era o tipo de príncipe da Igreja, que honrava o nome que levava, inflexível na doutrina e na luta contra os abusos” .

2. CONTEXTO HISTÓRICO DA HOMILIA SOBRE O EVANGELHO DE LUCAS 12

    Esta homilia apresenta-nos um contexto de desigualdade social, uma vez que os ricos acumulavam cada vez mais posses e riquezas e não eram capazes de ajudar os mais pobres, isto é, os famintos e desabrigados. “Embora os ricos fazendeiros já possuíssem vastas fazendas, nunca se contentavam, pois quanto mais tinham, mais queriam adquirir” .
    Basílio denunciava com ardente zelo pelos pobres a ganância dos ricos latifundiários. No entanto, não eram somente os ricos que oprimiam o povo pobre, mas também a própria natureza, com o sol forte, o clima seco e constantes enchentes que contribuíam para o alargamento da fome na região da Capadócia, lá pelos anos 368. Assim, “a população urbana ampliava-se com a multidão de Lázaros – mendigos e leprosos – que, sem empregos e desabrigados, encontravam nas esmolas dos outros a única chance de prolongar o número de seus dias” .
    Dessa maneira, o bispo de Cesaréia da Capadócia foi um exímio defensor da justiça, pois lutou para que, em sua sociedade, houvesse partilha entre os filhos de Deus, pois tudo o que recebemos é de Deus e todos somos pobres diante d´Ele.


3. ALGUNS ASPÉCTOS DA HOMILIA SOBRE LUCAS 12

    Versaremos, agora, sobre alguns aspectos desta homilia, principalmente os filosóficos, cristológicos, antropológicos e escatológicos, visto que, o discurso proferido por Basílio está permeado por estes e outros aspectos que estarão dissolvidos nos aspectos citados a cima.

3.1 ASPECTOS FILOSÓFICOS

    Como pano de fundo, a homilia apresenta-nos uma influência da filosofia, no que se refere à tentação da prosperidade da vida, mencionada por Basílio logo no início de seu discurso. De fato, “os filósofos ensinam como pensar”, mas não somente isso, eles também “ensinam como viver” .
    Assim, como vimos, a homilia foi desenvolvida num contexto um tanto conturbado, principalmente porque não havia distribuição justa dos bens materiais, isto é, os ricos acumulavam cada vez mais e os pobres sempre de mal a pior. Assim, existem aspectos da filosofia platônica na homilia, pois, para Platão, o mundo material é sombra e o homem deve buscar o mundo das idéias, onde reside a perfeição. Segundo Basílio, “se uma alma possui a virtude, se está repleta de boas obras e habita junto de Deus, então, sim, tem muitos bens e pode se regozijar com a mais bela alegria. Mas como aprecias as coisas terrenas, tens por Deus o ventre e és todo carnal, escravo das paixões” . Dessa maneira, para o homem chegar à perfeição deve se despojar do que é terreno, partilhando com os mais necessitados os seus bens.
Na presente homilia encontramos também aspectos da filosofia cínica, visto que para os cínicos, nada que havia no mundo tinha valor a não ser a virtude e a tranqüilidade. Diógenes, de certa forma, denunciava o exagero existente ao apego pelos bens materiais tornando-se um mendigo. Dessa forma, Crates de Tebas seguiu-o e se desprendeu de suas riquezas e se juntou aos cínicos.
É o que, na homilia sobre o Evangelho de Lucas, Basílio desenvolveu. Ele exortou aos ricos avarentos a partilharem os seus bens com os mais necessitados, pois somente assim, seria possível uma vida digna para todos.

3.2 ASPECTOS CRISTOLÓGICOS

    Quando falamos em aspectos cristológicos, estamos nos reportando à doutrina de Cristo a cerca da simplicidade da vida. Este, constantemente exortava seus discípulos a não se apegarem às coisas deste mundo, mas sim, a amarem a Deus e ao próximo. Pois, “felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,5), isto é, felizes todas as pessoas que têm misericórdia de seus irmãos, porque assim, Deus terá misericórdia delas.
    Se havia desigualdade social na época de Basílio, foi porque os ricos não compreenderam as palavras de Cristo: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,33-34). De fato, muitos poderosos latifundiários, inquietos, procuravam destruir seus celeiros para construir maiores (Lc 12,16-18).

3.3 ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS

    Há uma gama de aspectos antropológicos nesta homilia. Em primeiro lugar, Basílio quer fazer com que os ricos entendam que, nesta terra, nada é de ninguém, pois o homem se preocupa à toa em adquirir bens , uma vez que o ser humano é um simples administrador das obras de Deus .
    Na homilia, está presente também, certa disparidade entre pobres e ricos. Isto acaba por desumanizar o ser humano, pois o coloca em confronto com ele mesmo, ou seja, se o pobre sofre é porque o “seu relacionamento para com os outros seres humanos e para com Deus”  é destruído e, por outro lado a pobreza “desumaniza os ricos porque eles consideram os pobres pessoas inferiores, e a Deus, como um ser supérfluo” .
Se o ser humano, na época de Basílio, percebesse que o “outro dele” também é uma criatura de Deus e que, por isso mesmo, merece ser tratado como tal e com toda a dignidade, então não haveria nem pobres e nem ricos, isto é, “se cada um tirasse para si o que lhe é necessário e entregasse ao indigente o que sobra, ninguém seria rico, ninguém pobre” . Porém, a ganância dos ricos lhes cegaram o coração e os impediram de ver a necessidade do pobre.

3.4 ASPECTOS ESCATOLÓGICOS

    Os aspectos escatológicos contidos na homilia estão intimamente ligados à partilha, uma vez que o ser humano deve usufruir dos bens com sabedoria e moderação para que não falte nada a ninguém.
    Num primeiro momento, Basílio apresenta o tema da escatologia exortando aos ricos a fazerem o bem. “Deste ao faminto? O dom se volta para ti e te é restituído com juros” , isto é, consiste em uma recompensa divina pelo bem que se faz aqui na terra. Diante de Deus não importa o quanto se acumulou, mas o quanto se distribuiu a quem mais necessita e, assim, “o reino dos céus serão para ti o prêmio pela distribuição destes bens caducos” .
    Num segundo momento, o bispo de Cesaréia aborda o tema da escatologia na última parte da homilia, valendo-se de Mt 25, onde fala do juízo final. Quem reparte o que tem com os miseráveis serão chamados “benditos de meu Pai” (Mt 25,34), ao passo que quem acumula, destrói os celeiros para construir maiores (Lc 12,16-18), vende a preço muito alto aproveitando-se da necessidade dos pobres e espera a carestia para abrir os celeiros , serão chamados, por sua vez, de malditos e, assim, “estes irão para o castigo perpétuo, e os justos para a vida perpétua” (Mt 25,46), o reino dos céus.
    Basílio, contudo, deixa em aberto a questão, tentando fazer com que os próprios ricos e latifundiários, à luz do Evangelho, reflitam sobre o fim que os espera. É claro, porém, que Basílio deixa explícito que o melhor a fazer consiste em partilhar os bens a fim de não perecer no castigo eterno.


CONCLUSÃO

    A presente pesquisa procurou levantar alguns aspectos contidos na homilia sobre o capítulo doze do Evangelho segundo Lucas, que trata sobre o amor às riquezas, aspecto rechaçado por Basílio Magno. Os aspectos filosóficos, cristológicos, antropológicos e escatológicos nos fazem pensar que Basílio não condena propriamente os ricos, mas sua riqueza, pois enquanto desfrutam dos seus bens, outras pessoas passam fome e outras necessidades básicas para o bem-estar do ser humano. Só haverá igualdade social quando, de fato, os seres humanos criarem a consciência da partilha, isto é, quando ninguém guardar para si o que lhe é supérfluo, pois o supérfluo para uns pode ser necessário para outros. Assim, o pensamento de Basílio continua sendo válido para o século XXI frente aos desafios pertinentes com relação à igualdade social.

Frei Lucas Elias, OCD.












Referências

CESAREIA, Basílio de. Homilia sobre Lucas 12. Col. Patrística. Vol 14. São Paulo: Paulus, 1999, 192 p.

COLOMBÁS. Garcia M. El Monacato Primitivo. Vol. I. Madrid: B. A. C., 1974.

DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 276 – 288.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. São Paulo: Loyola, 2000, 366 p.

LLORCA, Bernardino. Historia de la Iglesia Catolica. Edad Antigua. Tomo I. Madrid: B. A. C, 1950, 640 p.

SIEPIERSKI, Paulo Donizéti. A “Leitourgia” libertadora de Basílio Magno. São Paulo: Paulus, 1995, 153 p.